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23/05 - O caos do próprio sucesso PDF Imprimir E-mail
23-Mai-2009

Para não travar, Blumenau precisa urgentemente rever a prioridade excessiva dada ao uso do automóvel.

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PLANEJAMENTO URBANO
Mantido o atual crescimento da frota, em 2018 Blumenau terá um veículo para cada habitante. Série de reportagens discute causas e soluções para o problema urbano
RAFAEL WALTRICK

Rua XV de Novembro, meio-dia. O guarda de trânsito, de apito na boca e braços levantados, parece sumir em meio ao fluxo de veículos que se aglomera na via, lotada. O som das buzinas e dos motores dá o ritmo da passagem dos automóveis, que andam poucos metros e param em seguida. Os minutos vão passando. Dentro dos veículos, rostos impacientes se multiplicam, ora atentos para o tráfego, que vem de todos os lados, ora visualizando o relógio. O cenário se estende a outras vias de Blumenau, onde o transporte coletivo contribui ainda mais para o caos. Os ônibus lotam nos horários de pico. No caminho para o trabalho ou almoço, o blumenauense sabe que o caminho será lento e árduo.

Falta espaço para o número de automóveis que circulam na cidade. Se as médias de crescimento da frota e da população forem mantidas, em 2018 haverá um veículo para cada habitante. O número de veículos aumenta 6,3% ao ano na última década, passando de 92.916 automóveis em 1998 para 173.985 em 2008. Na contagem feita até o mês passado, já eram 179.371 veículos, ou seja, um carro, moto ou caminhão para cada 1,7 habitante, muito acima da média nacional, que é de um automóvel para cada sete pessoas. Visualizando de outra maneira: se cada veículo transportasse apenas duas pessoas, toda a população da cidade poderia se deslocar com a atual frota. E o problema não para de crescer.

Especialistas atestam: a grande oferta e facilidade de crédito têm contribuído, e muito, para a aquisição dos automóveis e motos, principais integrantes da frota blumenauense. Já são quase 200 revendedoras espalhadas pela cidade. Somam-se a esses fatores um transporte público considerado insatisfatório e a falta de estrutura de ciclovias e passeios urbanos, que poderiam incentivar medidas alternativas de locomoção.

– A grande oferta de crédito dos últimos anos, aliada à renda mais alta dos catarinenses, acabou levando à aquisição desenfreada de veículos, que tem se mantido. E, em Blumenau, o fato de não haver um transporte coletivo de qualidade faz com que quem tem renda suficiente opte pelo carro ou pela moto – avalia o pesquisador do Instituto de Pesquisas Sociais (IPS) e chefe do Departamento de Economia da Furb, Ralf Marcos Ehmke.

O próprio secretário de Planejamento, Walfredo Balistieri, reconhece o problema e admite que, atualmente, restam poucas alternativas para o morador se deslocar pela cidade:

– Teoricamente, o morador do Bairro Ponta Aguda não precisaria pegar carro para vir pro Centro. Mas por que ele pega? Provavelmente porque as calçadas são ruins, ele não tem uma ciclovia, o transporte coletivo não é ideal.

– Nós temos 48 quilômetros de ciclovias na cidade, mas que não estão integradas. Elas são segmentadas, então levam nada a lugar nenhum – completa o presidente do Seterb, Rudolf Clebsch.

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Crescimento da frota também responde a estímulos culturais

Apesar da crise mundial, o mercado automotivo não parece recuar. No final de abril, Santa Catarina contabilizava mais de 3 milhões de veículos nas ruas. Em todo o país, somente nos primeiros 91 dias deste ano, foram vendidos um milhão de automóveis, especialmente os zero-quilômetro. O resultado é atribuído aos longos e diversificados planos de financiamento e ao corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). No entanto, entre os especialistas, é consenso que a aquisição do veículo não é resultado somente de estímulos econômicos.

– O carro é um bem de consumo mais desejado que uma casa própria ou um terreno. É um comércio que cresce muito e não está só ligado à utilidade do veículo como transporte, mas também como um instrumento de auto-estima – avalia o presidente da Associação dos Revendedores de Veículos Automotores do Estado de Santa Catarina (Assovesc), Alessandro Anacleto da Silva.

– Em sociedades mais desenvolvidas, todo mundo fala, em primeiro lugar, em habitação ou lazer. Já no Brasil, invariavelmente, o veículo aparece sempre como primeira aspiração. Você tem milhares de pessoas sem casa própria, que pagam aluguel, mas têm carro zero. É uma questão cultural – afirma o presidente do Seterb, Rudolf Clebsch.

Para o psicólogo Glauco Anderson Espíndola, ao contrário de haver uma política de prevenção para a economia pessoal, cada vez mais é estimulado e exigido o consumo e acesso a bens e serviços:

– As propagandas de automóveis exploram conteúdos universais como a velocidade, dominação, agressividade, emoção, potência e status social, induzindo cada vez mais esses símbolos a fazerem parte do universo masculino e feminino e produzindo continuamente laços que afetam e identificam homens e mulheres com seus automóveis.

Atualizado em ( 23-Mai-2009 )
 
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