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28-Mar-2009
A bibicleta é inovadora e popular porque é simples. Confira!

 

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IVO THEIS -  27/03/2009
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Vida simples


“Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. / Ambos existem, cada um como é”. São versos de Alberto Caeiro. Lembro deles quando me dou conta de quanta coisa coloco na minha relação com a natureza. E não são poucas.

Quando me alimento, poderia comer frutas e verduras e beber água, por exemplo. Fá-lo-ia não somente porque me proporcionaria boa condição de saúde, mas porque a natureza já me reservou o alimento na sua forma acabada. O que faço – e fazemos quase todos – é bem outra coisa. Tendo – e tendemos todos – a processar os alimentos, a transformá-los, para conferir a eles “um sabor”. É o cozimento, o acréscimo de sal ou açúcar. É o recurso aos enlatados. É, enfim, tudo o que a cultura (que compartilho) adiciona ao meu prato. Sim, no limite, é o alimento rápido das lanchonetes, regado a refrigerante. Em todos esses casos, me afasto da natureza, crio uma mediação infindável para resolver o simples problema do meu metabolismo privado.

No entanto, minha relação com a natureza é ainda mais complexa. Quando, por exemplo, me desloco de casa para o trabalho, recorro – e recorrem muitos – ao automóvel ou a outro meio sofisticado de transporte. E o mesmo acontece quando me desloco, em geral, de um lugar a outro. E aí penso que é preciso que o amontoado de lata seja construído – com o consumo de recursos imensos que a natureza disponibiliza em quantidades limitadas. E que é preciso construir as estradas pelas quais o amontoado de lata vai deslizar a velocidades perigosas, com o consumo imenso de mais recursos limitados – e terra. Para ter melhor ideia de quanto, então, estou afastado da natureza, penso que o trajeto poderia ser vencido a pé por um caminho calçado de pedras – não de automóvel por uma rua asfaltada.

Com seus versos diretos, Caeiro – uma brincadeira da heteronímia de Fernando Pessoa – me acorda para a realidade: a gente pode ser feliz levando uma vida simples. E isso é o mesmo que uma relação mais direta com a natureza. Como versejou, certeiramente: “Ai de ti e de todos que levam a vida/a querer inventar a máquina de fazer felicidade”.

 
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